Publicado em 19/04/2017 às 12:00 PM

PF avança nas investigações sobre desaparecimento de brasileiros nas Bahamas e naufrágio é hipótese mais forte

A embarcação que faria a travessia tinha capacidade para 10 pessoas e levava 19 a bordo

Várias buscas foram realizadas mas nenhum sinal dos brasileiros foi encontrado Várias buscas foram realizadas mas nenhum sinal dos brasileiros foi encontrado

Desaparecidos desde a madrugada de 6 de novembro, os 12 brasileiros que tentavam a travessia ilegal para os Estados Unidos em um barco no mar das Bahamas podem ter sido vítimas de um naufrágio. Esta é a hipótese que se mantém mais forte após quase quatro meses de investigações da Polícia Federal brasileira.

As outras hipóteses já levantadas do sumiço dos brasileiros foram: que o grupo tenha sido preso pela polícia ou por grupo criminoso nas Bahamas ainda na praia, antes do embarque, que tenha sido preso após o embarque por haver grande quantidade de droga no barco, ou que tenha sido vítima de um ataque pirata em alto-mar.

De acordo com o delegado responsável pela Operação Piratas do Caribe, Raphael Baggio de Luca, da PF de Rondônia, a tese do naufrágio se intensificou porque tudo indica que o grupo de 19 pessoas -os brasileiros e mais cinco dominicanos e dois cubanos (possivelmente tripulação)- tenha embarcado em um pesqueiro com capacidade para apenas dez pessoas.

"Nos Estados Unidos conversamos com a Guarda Costeira, com pessoas que já fizeram a travessia, com pessoas que construíram barcos. Era um barco que tinha capacidade para 10 pessoas e tinha 19 pessoas. As condições de tempo, pelo que falaram nos EUA, de tempo e de navegabilidade não eram boas. Na noite da travessia ainda havia resquícios do furacão que havia passado pela região", disse.

Apesar das buscas que foram feitas, não há vestígios do barco e nem dos 19 ocupantes a bordo. "A falta de vestígios pode acontecer. Um corpo flutuando fica boiando de três a quatro dias, depois afunda. Um barco também afunda. Conversei com uma pessoa que naufragou nas mesmas condições e nunca achou o barco", continua.

A Piratas do Caribe investiga o desaparecimento dos brasileiros e tenta desarticular a rede de coiotes que promove a travessia ilegal aos Estados Unidos pelas Bahamas. Cinco pessoas foram presas no Brasil em janeiro e cumprem medidas cautelares. As investigações estão em andamento e parte está sob sigilo.

Na investigação, a polícia trabalha com dados de geolocalização e informações de celulares e redes sociais dos desaparecidos para tentar rastrear a última localização de pessoas do grupo, se na praia ou em alto-mar. Mas as informações ainda não são conclusivas, apesar de em um primeiro momento terem indicado que o grupo estaria longe da costa.

As hipóteses de que os brasileiros pudessem estar presos se enfraqueceram porque os governos dos países que têm alguma relação com os desaparecimentos, Bahamas (origem), Cuba, República Dominicana (nacionalidade dos ocupantes) e Estados Unidos (destino final), enviaram documentos para as autoridades brasileiras negando a presença de brasileiros no sistema prisional dos países. Um possível sequestro foi descartado já que até agora, mais de cinco meses após o desaparecimento, não houve contato para pedido de resgate.

A hipótese de ataque pirata também perdeu força já que a região é extremamento monitorada pela guarda costeira americana que está a menos de 30 minutos de helicóptero do mar das Bahamas. A PF, portanto, acha pouco provável um ataque pirata nessa região.

O delegado Baggio esteve nos Estados Unidos em março a convite do governo americando para trocar informações com a ICE (Immigration and Costumes Enforcement), a agência responsável pelas remoções dos estrangeiros, e teve reuniões com integrantes da Guarda Costeira americana. Em fevereiro, o Brasil pediu oficialmente cooperação para os países com envolvimento no naufrágio mas até agora não teve resposta. O pedido de cooperação facilita a troca de informações para as investigações. Sem a cooperação, a Polícia Federal não pode investigar, realizar diligências e nem prender pessoas em outros países, apenas no Brasil.

Travessia

Em 5 de novembro, véspera do embarque dos brasileiros e dominicanos, um cubano que mora em Miami há duas décadas, Alexandre Milian, saiu pra pescar e não voltou mais. A família nunca soube do envolvimento dele com transporte de imigrantes ilegais. Milian trabalhava com construção civil e tem família em Miami: mulher, filha, pai e irmãos. Milian é apontado como o capitão do barco com os brasileiros e dominicanos.

Para a jornalista Eulalia Moreno, que investiga o desaparecimento desde o início, é improvável que o cubano tenha feito a travessia. Eulalia, que já prestou depoimento na Comissão Externa sobre o Desaparecimento de Brasileiros nas Bahamas da Câmara dos Deputados, acredita que o grupo não tenha embarcado e, portanto, não acredita em naufrágio.

Por outro lado, o fato do cubano não ter experiência em travessia, apenas em pesca, reforça a tese de um naufrágio.

Em contato com as famílias antes do embarque, os brasileiros desaparecidos relataram informações sobre dois possíveis capitães que fariam a travessia. Os brasileiros, que não se conheciam e chegaram em datas distintas a Nassau, nas Bahamas, estavam todos hospedados na mesma casa, à espera do embarque, que não tinha data para acontecer. No dia 1º de novembro, dois brasileiros que não se conheciam antes (Diego e Regiane), relataram para as suas famílias que o capitão já havia chegado de avião e que estava hospedado na casa.

Mas, no dia seguinte, 2 de novembro, outro brasileiro que estava na mesma casa, Sérgio, pediu a um amigo americano que entregasse 15 mil dólares para um representante de um dos coiotes nos Estados Unidos. Explicou que esse dinheiro seria usado para pagar e buscar o capitão que ainda estava em Miami. Sérgio, desaparecido ao lado da mulher, disse ao amigo americano que "se o capitão não recebesse ele e a esposa não embarcariam”.

Um dia depois, Diego, o mesmo brasileiro que havia contado à família que o capitão já estava na casa desde o dia 1º, disse à mãe no Brasil que o embarque ainda não tinha acontecido porque o capitão do barco tinha dito que o mar estava agitado, que estava abastecendo porque o grupo faria uma rota alternativa mais longa e que a travessia se daria possivelmente entre os dias 5 e 6 de novembro.

Nas conversas com as famílias, os brasileiros não relatam troca de capitão. Mas, na data do embarque falam de confusão, 'guerra' para embarcar, dizem que não há lugares para todos e são levados e trazidos da casa para a praia três vezes o que mostra que o embarque estava confuso. A primeira tentativa de embarque teria acontecido às 11h30 do dia 5 de novembro, mas não acontece porque o barco estava atrasado, segundo o brasileiro Lucirlei. Ele relata à família que a travessia duraria três dias por uma mudança na rota. Em geral essa travessia demora cerca de oito horas.

Fonte: Brazilian Times