Publicado em 22/03/2025 as 11:03am
Brasileiras detidas ao tentar entrar nos EUA um dia após posse de Trump aguardam deportação
Fonte: Da redação
Pelo menos quatro mulheres envolvidas nos ataques de 8 de janeiro de 2023, data marcada pela invasão aos Três Poderes em Brasília, foram presas ao tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Três delas foram detidas no dia seguinte à posse de Donald Trump, em janeiro, conforme infomações do Departamento de Imigração e Alfândega (ICE, sigla em inglês).
As quatro aguardam deportação seus países de origem e estão detidas em solo norte-americano há mais de 50 dias.
As detidas são Raquel Souza Lopes, de Joinville (Santa Catarina); Rosana Maciel Gomes, de Goiânia (Goiás); Michely Paiva Alves, de Limeira (São Paulo); e Cristiane da Silva, de Balneário Camboriú (Santa Catarina). Três delas foram condenadas por crimes relacionados ao 8 de janeiro, incluindo tentativa de golpe de Estado e dano ao patrimônio público, enquanto a quarta possui mandados de prisão em aberto no Brasil.

Todas fazem parte de um grupo de militantes que deixou o Brasil no primeiro semestre de 2024 e se estabeleceu na Argentina, antes de fugir novamente rumo aos EUA após pedidos de extradição do Supremo Tribunal Federal (STF).
O objetivo das fugitivas era buscar refúgio político no governo de Donald Trump, aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). No entanto, a tentativa de asilo foi frustrada. Raquel tentou entrar nos EUA em 12 de janeiro, sendo presa em Raymondville, no Texas. Já Rosana, Michely e Cristiane foram detidas em 21 de janeiro ao tentar cruzar a fronteira por El Paso, também no Texas.

A prisão ocorreu em um contexto de endurecimento das políticas imigratórias sob o novo governo Trump. Na véspera da detenção de três delas, o presidente norte-americano prometeu deportações em massa de imigrantes indocumentados, afirmando que "toda entrada ilegal será imediatamente interrompida".
As detenções foram realizadas pela Patrulha de Fronteira (CBP, sigla em inglês), que identificou a entrada ilegal das mulheres no país.
As quatro fugitivas enfrentam agora processos de "deportação acelerada", um mecanismo que permite a expulsão estrangeiros sem audiência perante um juiz de imigração. Enquanto isso, outros foragidos do 8 de janeiro continuam em países como Argentina, Colômbia e Peru, onde alegam perseguição política por apoiarem Bolsonaro.

Perfil das detidas
Raquel Souza Lopes, de 51 anos, foi condenada a 17 anos de prisão por crimes como golpe de Estado e dano ao patrimônio público. Ela nega ter destruído bens públicos e fugiu do Brasil em abril de 2024, passando pela Argentina, Chile, Peru, Colômbia e México antes de tentar entrar nos EUA. Sua advogada no STF abandonou o caso em dezembro, e sua família busca agora um novo defensor.
Rosana Maciel Gomes, também de 51 anos, foi condenada a 14 anos de prisão e possui dois mandados de prisão em aberto. Ela fugiu para o Uruguai em janeiro de 2024 e, após passar por Argentina, Peru, Colômbia e México, foi presa em El Paso. Sua defesa alega que ela não danificou bens públicos durante os ataques.
Michely Paiva Alves, de 38 anos, é ré por cinco crimes relacionados ao 8 de janeiro. A comerciante, que chegou a se candidatar a vereadora em Limeira (SP), organizou e financiou um ônibus que levou militantes a Brasília. Ela fugiu para a Argentina em setembro de 2024 e foi presa ao tentar entrar nos EUA em janeiro.
Cristiane da Silva, de 33 anos, foi condenada a um ano de prisão por associação criminosa e incitação ao crime. Ela alega que foi a Brasília "para passear" e não participou dos atos de vandalismo. Após fugir para a Argentina em junho de 2024, ela seguiu para os EUA, onde foi presa em El Paso.
Contexto e repercussões
As prisões ocorrem em meio a um cenário de polarização política no Brasil e nos EUA. Enquanto as fugitivas se declaram perseguidas políticas, o STF e o governo brasileiro mantêm a posição de que os atos de 8 de janeiro foram uma tentativa de golpe de Estado. A Asfav, associação que representa investigados no episódio, critica as penas de até 17 anos de prisão como "duríssimas".
O Itamaraty, por sua vez, não comentou detalhes sobre o caso, citando questões legais. Enquanto isso, organizações de direitos dos imigrantes nos EUA criticam o uso de "expulsões aceleradas", que negam o direito a uma audiência justa.
A situação das quatro mulheres reflete a complexidade das consequências políticas e jurídicas dos eventos de 8 de janeiro, que continuam a reverberar tanto no Brasil quanto no exterior.