Publicado em 2/04/2025 as 6:00pm
Residentes de Peterborough (NH) exigem respostas após detenção de trabalhadores de restaurante por agentes federais
Há semanas, rumores circulam nesta pequena cidade no sopé do Monte Monadnock sobre quatro...
Há semanas, rumores circulam nesta pequena cidade no sopé do Monte Monadnock sobre quatro funcionários de um restaurante local popular, detidos por agentes federais sem explicações claras. No dia 24 de fevereiro, agentes d Departamento de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, sigla em inglês) e da Agência Antidrogas (DEA) chegaram ao Mi Jalisco, um restaurante mexicano, revistaram o estabelecimento e levaram um cozinheiro e três outros empregados sob custódia.
Desde então, as autoridades não esclareceram os motivos das detenções ou as acusações contra os trabalhadores, deixando a comunidade em alerta. Em uma recente reunião municipal, moradores descreveram a situação como "aterrorizante" e exigiram transparência.
"Essas pessoas estão presas? Precisam de advogados? De ajuda financeira?", questionou Ciaran Nagle, um residente que se dirigiu ao conselho municipal.
A falta de informações alimenta temores em meio a uma onda de operações de imigração na Nova Inglaterra. Em Massachusetts, a estudante turca Rümeysa Öztürk, doutoranda na Tufts University, foi detida por agentes mascarados e transferida para um centro no Louisiana. Agora, Peterborough se vê no centro de um debate semelhante.
O chefe de polícia local, Scott Guinard, afirmou que sabia da presença dos agentes federais, mas ignorava o alvo ou o motivo da operação. Desde 2017, a cidade tem uma norma que impede sua polícia de cooperar com a aplicação de leis federais de imigração — uma política que, segundo o presidente do conselho municipal, Tyler Ward, pode ter colocado Peterborough no radar das autoridades.
"Não sei por que não fomos informados", disse Ward à WBUR. "O mistério em torno disso tudo é o que deixou as pessoas indignadas." Ele nega, porém, que a cidade seja um "santuário" para imigrantes indocumentados. "Ninguém aqui quer proteger criminosos, mas as pessoas não aceitam que alguém seja levado sem explicação."
Procurados pela WBUR, o ICE e a DEA não comentaram o caso. O dono do Mi Jalisco, que se recusou a dar entrevista, afirmou apenas que "não contrata criminosos" e que trabalha honestamente.
Enquanto isso, a comunidade se mobiliza. Uma campanha no GoFundMe foi criada para ajudar os detidos, descritos como "pessoas que só querem trabalhar e sustentar suas famílias". Um deles, segundo a página, tem um bebê prestes a nascer e já foi liberado de um centro no Texas para aguardar audiência. Um advogado envolvido não respondeu aos pedidos de informação.
O silêncio das autoridades, no entanto, persiste — e com ele, o medo. Um empresário local, identificado apenas como "T" por receio de represálias, disse à WBUR que a situação contradiz os valores do estado ("Viva livre ou morra") e do país. "Estamos vendo uma abordagem que mina esses princípios", afirmou.
Nagle, um músico irlandês que se tornou cidadão americano, defendeu uma reforma no sistema de imigração. "Se você é criminoso, não deveria estar aqui. Mas o processo legal está quebrado. Não expulse pessoas só porque estão tentando se regularizar."
Gilles Bissonnette, da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) em New Hampshire, observa que o governo federal costuma divulgar apenas casos que se alinham a sua narrativa sobre imigração, omitindo situações que não se encaixam. Sob a administração Trump, imigrantes sem documentos são frequentemente chamados de "criminosos", ainda que muitos detidos não tenham antecedentes.
O caso ocorre em um momento em que New Hampshire avança em leis mais rígidas contra imigração, diferindo de seus vizinhos da Nova Inglaterra. A nova governadora republicana, Kelly Ayotte, prometeu "banir políticas de santuário" — como a de Peterborough —, citando supostos "custos com imigrantes ilegais" em Massachusetts.
Enquanto legisladores estaduais discutem um projeto para proibir cidades-santuário, defensores de imigrantes alertam que essas medidas quebram a confiança na polícia e tornam as comunidades menos seguras.
Em Peterborough, a resposta tem sido o apoio, não a repressão. Desde as detenções, a cidade promove iniciativas para que empresas e funcionários conheçam seus direitos e saibam onde buscar ajuda jurídica.
"Peterborough é uma comunidade acolhedora", afirmou Ward. "Estamos todos tentando entender: como podemos ajudar?"
Enquanto as perguntas continuam sem resposta, o clima na pequena cidade segue tenso — e o caso do Mi Jalisco virou símbolo de um debate nacional muito maior.