Uma investigação da Polícia Federal revelou a dimensão de uma estrutura clandestina que, segundo as autoridades, teria organizado durante anos a entrada irregular de centenas de brasileiros nos Estados Unidos. Entre os principais alvos está a empresária Maria Helena de Sousa Netto Costa, de Goiânia, apontada pelos investigadores como suspeita de comandar um dos cinco grupos envolvidos no esquema.
Maria Helena foi presa preventivamente no dia 7 de maio de 2026, durante a Operação Travessia, deflagrada pela Polícia Federal em Goiás e no Amapá. A ação cumpriu 11 mandados de busca e apreensão e sete mandados de prisão preventiva. Dois investigados também tiveram os nomes incluídos na lista de Difusão Vermelha da Interpol.
As investigações se concentraram principalmente no período entre 2018 e 2023, mas a PF encontrou indícios de que algumas das estruturas investigadas já atuavam desde meados dos anos 2000. Ao todo, foram identificadas cinco organizações independentes, com estruturas próprias, porém inseridas em uma mesma dinâmica transnacional destinada à promoção da migração irregular para os Estados Unidos.
Segundo os investigadores, os cinco grupos teriam movimentado aproximadamente R$ 240 milhões entre 2018 e 2023. O núcleo atribuído especificamente a Maria Helena teria sido responsável por movimentar cerca de R$ 45 milhões no período.
A PF afirma que as organizações estruturavam praticamente todas as etapas das viagens clandestinas. O esquema começava com a saída dos migrantes do Brasil por avião e continuava por países da América Central, principalmente Panamá e México, até a aproximação da fronteira norte-americana. A última etapa envolvia a travessia terrestre para os Estados Unidos.
Integrantes das organizações também atuariam em outros estados brasileiros e no exterior, oferecendo suporte logístico, recepção dos migrantes e intermediação de pagamentos. A investigação identificou ainda suspeitas de utilização de empresas de fachada, terceiros e mecanismos de lavagem de dinheiro para ocultar a origem e a movimentação dos recursos.
A Polícia Federal contabilizou pelo menos 477 brasileiros que teriam entrado irregularmente nos Estados Unidos por intermédio dos grupos investigados. A corporação admite, entretanto, que o número real pode ultrapassar 600 pessoas.
Reportagens baseadas nos elementos da investigação indicam que os migrantes chegavam a desembolsar aproximadamente US$ 20 mil pela operação. Maria Helena seria responsável, de acordo com a PF, por articular contatos com coiotes, providenciar passagens e participar da organização das rotas.
Áudios chamaram atenção dos investigadores
Outro elemento revelado durante a investigação foram gravações atribuídas a Maria Helena. Em um dos áudios divulgados pela imprensa, ela afirma possuir experiência para ajudar migrantes que haviam sido detidos nos Estados Unidos. As gravações passaram a integrar o conjunto de informações relacionadas à atuação atribuída ao grupo.
A apuração ganhou força após um episódio ocorrido em 2022, quando brasileiros foram interceptados no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Segundo informações divulgadas sobre a investigação, migrantes ouvidos naquele momento teriam mencionado o nome da empresária, levando a Polícia Federal a aprofundar as diligências.
Liberdade com tornozeleira
A prisão preventiva de Maria Helena durou pouco mais de 24 horas. No dia 8 de maio, a Justiça Federal determinou que ela fosse colocada em liberdade, substituindo a prisão por medidas cautelares.
Entre as medidas impostas estava o uso de tornozeleira eletrônica inicialmente por 90 dias. Outra mulher investigada no mesmo caso também foi colocada em liberdade sob monitoramento eletrônico.
A defesa de Maria Helena afirmou, na ocasião da prisão, que recebeu as medidas com surpresa e considerava a prisão preventiva desnecessária. Os advogados sustentaram que ela não representaria risco à ordem pública, à investigação ou à aplicação da lei penal e disseram confiar no Poder Judiciário.
Caso continua tramitando na Justiça
Uma consulta atualizada aos registros processuais disponíveis mostra que processos relacionados a Maria Helena e à promoção de migração ilegal continuam ativos na Justiça Federal. Um deles, no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, registrou movimentação ainda em 27 de agosto de 2026, envolvendo recurso apresentado pelo Ministério Público Federal.
Outro registro processual, relacionado à promoção de migração ilegal, aponta Maria Helena como ré ao lado de outros envolvidos e teve movimentação registrada em julho. Como parte dos processos possui informações restritas ou resumidas nas bases públicas, não é possível concluir, apenas a partir desses registros, qual será o desfecho criminal do caso.
Maria Helena é sogra do governador de Goiás, Daniel Vilela. Desde o início da operação, o governo estadual ressaltou que nem Vilela nem sua esposa, Iara Netto Vilela, são investigados. Em nota divulgada após a operação, o governador afirmou que os fatos apurados não possuem relação com ele, com sua família imediata ou com o governo de Goiás.
Os investigados na Operação Travessia podem responder, conforme a Polícia Federal, por crimes relacionados à promoção de migração ilegal, organização criminosa e lavagem de dinheiro. As acusações ainda precisam ser analisadas definitivamente pela Justiça, e os investigados têm direito à defesa e à presunção de inocência.
O caso expõe a dimensão financeira alcançada por organizações especializadas em transportar brasileiros clandestinamente para os Estados Unidos. Além dos valores elevados cobrados dos migrantes, as rotas utilizadas envolvem longos deslocamentos internacionais e travessias terrestres que podem colocar os viajantes em situações de extrema vulnerabilidade.





