Bárbara Brandão é daquelas mulheres que não cabem em um só título. Baiana de Feira de Santana, criada no bairro do Tomba, na Travessa São João, filha de um vendedor de livros e de uma cabeleireira que fazia cabelo no ferro, ela trocou a vida simples por uma trajetória internacional.
Chegou aos Estados Unidos grávida, sozinha, apenas com Deus e a fé na mala. Mãe do Nicolas, um menino autista, trabalhou como babá, na limpeza e como Nurse Assistant no Mount Sinai, em Nova York. Aprendeu inglês, estudou estética, marketing digital e inteligência artificial até se tornar Embaixadora do Luxo Global, Conselheira e Comendadora, conectando clientes de alto padrão a empreendimentos icônicos entre Manhattan e Sunny Isles, em Miami.
Atleta de karatê formada na Academia Jorge Índio, criadora do projeto Mulheres pelo Mundo Sem Fronteiras, Bárbara carrega uma história de disciplina, recomeços e coragem. Nesta entrevista exclusiva, ela fala sobre mentalidade, maternidade, negócios e sobre as batalhas invisíveis que não aparecem na foto.
- Você cresceu no Tomba, em Feira de Santana, dizendo que conheceria o mundo e muita gente riu. O que fez você continuar acreditando quando ninguém mais acreditava?
Desde muito nova eu sentia uma certeza por dentro que eu nem sabia explicar. Eu olhava para o Tomba e sonhava além daquilo. Meu pai me ensinou disciplina e responsabilidade, e meu dindo me incentivou quando eu ainda estava começando a acreditar em mim. Aprendi cedo que o sonho precisa sobreviver primeiro dentro da gente, mesmo quando os outros não enxergam.
- Você fala que o karatê te ensinou disciplina, respeito e coragem. Qual foi o golpe mais difícil que a vida te deu e que só o karatê te preparou para aguentar?
A vida me deu golpes emocionais que não aparecem na foto: recomeços, medo e momentos em que eu queria desabar. No karatê eu aprendi que força não é atacar, é controlar a mente, respeitar, respirar e seguir mesmo cansada. Levei essa disciplina para a vida: posso estar com medo, mas não deixo o medo decidir por mim.
- Você chegou a trabalhar como babá, na limpeza e como Nurse Assistant no Mount Sinai. Qual foi o momento em que você se sentiu mais invisível nos EUA e como transformou isso em força?
No começo eu me senti invisível muitas vezes. As pessoas viam o uniforme, a função daquele momento, mas não a mulher cheia de sonhos que existia por trás. Em vez de sentir vergonha, usei aquilo como combustível. Eu estudava, observava, aprendia inglês e buscava crescer. No Mount Sinai, aprendi muito sobre humanidade e responsabilidade. Nunca considerei nenhum trabalho pequeno. Cada etapa estava construindo a mulher que eu me tornaria.
- Como a chegada do Nicolas mudou sua ambição? Ser mãe nos Estados Unidos, longe da rede de apoio da Bahia, te fez repensar o que é sucesso?
Completamente. Antes do Nicolas, sucesso era muito sobre realizar os meus sonhos. Depois, passou a ser também exemplo, estrutura, proteção e amor. Ser mãe nos Estados Unidos, longe da minha família e tendo um filho que precisa de uma atenção muito especial, mudou completamente a minha maneira de enxergar a vida. Entendi que sucesso não é só dinheiro ou reconhecimento. É estar presente, lutar por quem você ama e, ao mesmo tempo, não desistir de quem você é.
- Você viveu o rigor de Manhattan e o brilho de Miami/Sunny Isles. O que cada uma dessas cidades te ensinou sobre negócios e sobre ser mulher?
Nova York me ensinou velocidade, disciplina e resistência. Manhattan não espera ninguém. É uma grande escola. Miami me ensinou muito sobre relacionamento, imagem, networking e o mercado internacional de alto padrão. Como mulher, aprendi nas duas cidades que não basta entrar em lugares importantes. É preciso ter conteúdo, postura, educação e construir relações verdadeiras.
- Hoje você transita no mercado de luxo e alto padrão. Depois de ter começado em trabalhos tão simples, o que o luxo significa para você hoje? É status ou é conquista?
Para mim, luxo não é exibição. É conquista, liberdade e acesso. Eu sei o que é começar de baixo, então não esqueço de onde vim. O verdadeiro luxo é olhar para trás e reconhecer a trajetória, sentar em mesas que um dia pareciam distantes e continuar tratando todas as pessoas com respeito, independentemente de quem elas sejam.
- Sobre o projeto Mulheres pelo Mundo Sem Fronteiras: Você diz “quando uma mulher abre uma porta, ela pode ajudar outras a atravessarem”. Qual foi a porta que demoraram para abrir para você e que hoje você quer escancarar para outras mulheres?
A porta das conexões. Muitas vezes capacidade não falta. O que falta é alguém dizer: “Senta aqui, eu te apresento, eu te oriento.” Tive que conquistar muitas dessas conexões praticamente sozinha. Por isso, hoje quero segurar essa porta aberta. Com o Mulheres pelo Mundo Sem Fronteiras, quero que uma mulher possa ajudar a outra com informação, oportunidade e conexão real. Não quero apenas entrar. Quero abrir caminho.
- Por que uma comunicadora com uma história tão humana decidiu apostar em IA e marketing digital? Como a tecnologia pode ajudar a contar histórias reais sem perder a alma?
Porque tecnologia não precisa ser inimiga da humanidade. A inteligência artificial é uma ferramenta muito poderosa quando existe uma pessoa real por trás, com história, verdade e propósito. Comecei a estudar IA, produção de vídeos e marketing digital porque percebi que essas ferramentas podem levar histórias reais a muito mais pessoas. A tecnologia pode ajudar na forma, mas a alma continua sendo humana.
- Sobre a dor que não aparece na foto: Você fala que muitas mulheres carregam batalhas invisíveis que não aparecem no Instagram. Qual foi uma batalha sua que ninguém imaginava ao ver sua foto sorrindo?
Houve uma fase em que eu aparecia arrumada, sorrindo, trabalhando e seguindo a vida, enquanto, por trás daquela imagem, eu cuidava de uma pessoa com câncer e enfrentava toda a carga emocional que uma situação assim traz. Existiam preocupações, noites difíceis, responsabilidades e momentos em que eu precisava encontrar forças mesmo estando emocionalmente cansada. Foi uma batalha que muita gente não conseguia enxergar pelas fotos. Isso me ensinou algo muito importante: ninguém sabe completamente o que existe por trás do sorriso de outra pessoa. Por isso tenho tanta empatia por mulheres que vivem batalhas silenciosas. Às vezes, uma mulher está sorrindo para o mundo enquanto tenta ser forte dentro da própria casa.
- Se a menina do Tomba que sonhava grande encontrasse hoje a Bárbara que vive entre Brasil e EUA, o que você diria para ela? E o que você quer que o Nicolas diga sobre você daqui a 20 anos?
Eu abraçaria aquela menina e diria: “Continue. Não diminua os seus sonhos para caber na opinião de ninguém. Muitas pessoas ainda vão duvidar de você, você vai passar por momentos difíceis, vai cair e vai precisar recomeçar. Mas continue, porque aquele mundo que você sonhava conhecer realmente existe.” E sobre o Nicolas, daqui a 20 anos, eu gostaria que ele pudesse dizer: “Minha mãe nunca desistiu de mim e nunca desistiu dela.” Esse seria o maior legado da minha vida. Mais do que os lugares onde cheguei, os projetos que construí ou as pessoas que conheci, quero ser lembrada como uma mulher que continuou, que amou profundamente o filho e que usou a própria história para abrir portas para outras pessoas.





