Existe um ditado popular atribuído ao escritor espanhol Miguel de Cervantes que diz: “Quem canta seus males espanta”. Mas será que é realmente assim?
Na caminhada da vida, nem sempre estamos cantando. Há dias em que as lágrimas fazem parte da rotina. Muitas pessoas limpam o rosto, retocam a maquiagem e saem às ruas com um sorriso no rosto, enquanto o coração sangra diante de situações que quase ninguém conhece. São problemas familiares, dificuldades no trabalho, questões financeiras, perdas, frustrações e até doenças.
Vivemos em uma sociedade que, muitas vezes, valoriza a aparência da força, mas não sabe acolher a vulnerabilidade. Por isso, aprendemos a esconder nossas lágrimas. Algumas vezes, fazemos isso até mesmo por meio das canções.
A Bíblia, porém, nos mostra pessoas que cantaram em meio às adversidades. Não porque a dor havia desaparecido, mas porque encontraram em Deus forças para continuar. O louvor não significa ausência de sofrimento. Pode significar a decisão de não permitir que o sofrimento tenha a última palavra.
É nesse espaço entre a lágrima e a canção que muitas histórias são construídas.
Fortalecer a alma exige exercício diário. Isso também passa pelo equilíbrio das emoções. Não significa deixar de sentir, mas aprender a compreender e administrar aquilo que sentimos. As críticas, por exemplo, podem se transformar em pesos quando permitimos que a opinião dos outros determine o nosso valor.
Caminhar com confiança também exige autovalorização. Esperar constantemente que outra pessoa reconheça nossa importância pode significar uma espera interminável. Existem momentos em que precisamos compreender que nossa identidade não pode depender exclusivamente da validação alheia.
Essa reflexão me levou ao livro recém-lançado pela escritora Sônia Aparecida Do Carmo Silva, intitulado Entre Lágrimas e Canções - Uma Alma Que Aprendeu A Continuar. Em uma de suas reflexões, a autora escreve:
“Existem pessoas que sentem tudo de maneira intensa. Sentem o amor. Sentem a ausência. Sentem a decepção. Sentem a saudade. Sentem o abandono. E, muitas vezes, sentem até mesmo os silêncios.”
Sônia Aparecida Do Carmo Silva descreve pessoas que percebem detalhes, mudanças no tom de voz e olhares que outros não percebem. São pessoas que, muitas vezes, carregam tempestades inteiras dentro do peito enquanto continuam tentando permanecer fortes por fora.
Em outro momento, a autora afirma: “Hoje entendo que sentir profundamente não é uma fraqueza. É uma forma diferente de enxergar a vida.”
Talvez precisemos reaprender a olhar para a sensibilidade. Sentir profundamente não significa ser fraco. Pode significar possuir uma capacidade maior de perceber, acolher, compreender e desenvolver compaixão.
A fé cristã não promete uma vida sem lágrimas. A Bíblia não romantiza o sofrimento. Ela nos ensina, porém, que podemos atravessar a dor sem atravessá-la sozinhos.
É por isso que cantar pode ter um significado muito maior do que simplesmente espantar os males. Às vezes, cantar é uma declaração de esperança. É dizer, mesmo com os olhos marejados, que a história ainda não terminou.
Há lágrimas que precisam ser choradas. Há dores que precisam ser reconhecidas. Há sentimentos que precisam ser acolhidos. E há canções que nascem justamente depois de atravessarmos aquilo que um dia pensamos que não conseguiríamos suportar.
Talvez o verdadeiro sentido do ditado seja este: quem canta não necessariamente deixa de ter problemas. Mas encontra, na canção, uma maneira de lembrar que a dor não precisa ocupar todos os espaços da alma.
Entre lágrimas e canções, seguimos vivendo. E talvez seja justamente nesse intervalo que descobrimos que sentir profundamente não nos torna mais fracos. Pode nos tornar mais humanos, mais compassivos e mais capazes de transformar aquilo que nos feriu em uma nova forma de amar.





