Você já colocou seu filho para dormir e, quando a casa finalmente ficou em silêncio, começou a pensar em tudo o que poderia ter feito diferente? Na resposta mal dada, na paciência que acabou, no abraço que você não conseguiu oferecer quando foi pedido...
E então vem aquela pergunta que machuca: será que estou estragando meu filho?
Quando começamos a estudar a infância, algo curioso acontece. Quanto mais compreendemos as necessidades emocionais das crianças, mais percebemos as vezes em que não conseguimos atendê-las. E aquilo que deveria nos ajudar a educar melhor pode se transformar em mais uma cobrança.
Mas ao compreendermos melhor a educação que desejamos oferecer aos nossos filhos, passamos a reconhecer atitudes que eram reproduzidas na nossa própria infância. A culpa chega acompanhada do medo de ter comprometido a relação com seus filhos.
Essa reflexão me toca profundamente porque acredito que precisamos compreender algo: a educação respeitosa não começa na criança, e sim no adulto.
Mas como oferecer respeito a uma criança quando ainda não aprendemos a olhar com respeito para nós mesmos?
Talvez você tenha crescido acreditando que errar significava decepcionar alguém, que precisava acertar para merecer aprovação. E agora, diante dos seus filhos, exige de si uma perfeição que nunca deveria ter sido exigida de você.
Nós somos convidados a olhar para essa história, não para encontrar culpados, mas para reconhecer aquilo que precisamos transformar. E aqui existe uma diferença fundamental: a culpa nos prende ao que fizemos. A responsabilidade nos pergunta o que podemos fazer a partir de agora.
Responsabilidade é reconhecer que gritei, pedir desculpas, compreender o que aconteceu comigo e buscar outras formas de agir. Sem fingir que nada aconteceu, mas também sem acreditar que um erro define toda a minha maternidade ou paternidade.
A imagem do Kintsugi, uma técnica japonesa para reparar louça quebrada com pó de ouro, apresentada por Maya Eigenmann no livro ‘A Raiva Não Educa, A Calma Educa’, me parece especialmente bonita: uma cerâmica quebrada que é reparada, deixando suas marcas visíveis.
Porque nossos filhos não precisam de adultos que nunca erram, precisam de adultos que assumam seus erros e se comprometam a reparar. Não importa o quanto já erramos, mas sim o quanto estamos dispostos a nos transformar para não continuar repetindo.
Porque quando entendemos a infância, não transformamos apenas crianças. Transformamos gerações.





