Em 10 de outubro, celebra-se mundialmente o “Dia da Saúde Mental”. A data nos convida a conscientização dos problemas que vão além dos olhos, e a sensibilidade de perceber quem— silenciosamente—pode estar pedindo ajuda.
Você pergunta como alguém está. A pessoa sorri, diz que está tudo bem e muda de assunto. Talvez esteja mesmo. Talvez queira preservar sua intimidade. Ou talvez não saiba como explicar o que sente sem começar a chorar, preocupar a família ou parecer incapaz de cuidar da própria vida.
Não é possível descobrir o estado emocional de alguém por uma frase. Mas vale prestar atenção quando a resposta encerra todas as conversas, enquanto outras coisas começam a mudar.
O primeiro passo é compreender que falar exige mais do que ter alguém por perto. Exige confiança de que o sofrimento será ouvido sem julgamento. A Mental Health Foundation, organização britânica dedicada à saúde mental, recomenda oferecer espaço para a conversa e respeitar o quanto a pessoa deseja compartilhar.
Algumas situações ajudam a compreender por que alguém prefere dizer que está bem:
1. Medo de preocupar: Quem cuida dos filhos, acompanha os pais ou sustenta a casa pode pensar que precisa poupar os outros. “Eles já têm problemas demais.” Se você se reconhece nessa lógica, pergunte-se: quem pode cuidar de você enquanto você cuida de todos?
2. Receio de julgamento: Talvez uma tentativa anterior de conversar tenha recebido uma resposta como “isso é falta do que fazer”. Depois de ser tratado dessa forma, o silêncio pode parecer uma escolha mais segura. Antes de cobrar que alguém se abra, observe como você reage quando essa pessoa admite uma dificuldade.
3. Necessidade de preservar a imagem: No trabalho, dizer que está sobrecarregado pode parecer arriscado. Em casa, quem costuma resolver tudo pode temer perder esse lugar. A questão é quanto custa sustentar uma imagem de disponibilidade que já não corresponde ao que você consegue oferecer.
4. Dificuldade de explicar: Nem sempre existe uma história organizada para contar. Pode haver tristeza, irritação ou um cansaço que a pessoa não sabe descrever. Para começar uma conversa, basta algo como: “Não sei explicar direito, mas tenho me sentido diferente”.
Essas situações não constituem um diagnóstico. Servem para lembrar que uma resposta curta pode ter razões que desconhecemos. Também não devemos transformar toda reserva em sinal de doença. Cada pessoa tem direito à sua intimidade.
Se você costuma dizer que está bem, faça uma pausa e observe os últimos dias. Tem dormido como antes? Ainda encontra interesse nas atividades de que gostava? Está conseguindo se concentrar? Tem evitado pessoas com quem gostaria de estar?
Agora pense na sua resposta habitual. Você diz que está bem porque está, porque aquele não é o momento de conversar ou porque acredita que ninguém gostaria de ouvir a verdade?
São perguntas para reflexão, não um teste com pontuação. O que merece atenção é a mudança na sua rotina, sua duração e o quanto ela interfere na vida.
O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos orienta procurar ajuda profissional quando sintomas intensos ou que causam sofrimento persistem por duas semanas ou mais. Entre os exemplos estão alterações no sono e no apetite, dificuldade de concentração, perda de interesse e dificuldade para realizar tarefas habituais. Não é necessário esperar esse prazo quando o sofrimento é intenso ou há risco à segurança.
Se você percebe que precisa falar, comece por uma pessoa em quem confia. Não precisa contar tudo de uma vez. Diga o que consegue dizer hoje. Um pedido concreto também pode facilitar: “Você pode conversar comigo esta noite?” ou se for alguém mais íntimo,“Preciso de ajuda para procurar um atendimento ou grupo de apoio”.
Escolha o contexto. Uma conversa no corredor do escritório oferece pouca privacidade. Uma ligação feita enquanto alguém dirige pode não receber a atenção necessária. Perguntar “você tem alguns minutos para me ouvir?” ajuda a reservar espaço para o assunto.
Se estiver do outro lado, ouvindo alguém, procure agir assim:
1. Pergunte sem concluir: “Como você tem passado?” permite que a pessoa conte sua experiência. Evite anunciar um diagnóstico ou decidir o que ela sente antes de ouvi-la.
2. Escute antes de aconselhar: Não interrompa com a sua própria história nem transforme a conversa numa disputa sobre quem sofre mais. Pergunte se a pessoa deseja ser ouvida ou pensar em soluções.
3. Ofereça ajuda possível: Você pode ajudar a organizar uma tarefa, procurar um profissional ou acompanhar uma consulta, se ela quiser. Seja claro sobre o que consegue fazer. Promessas de disponibilidade sem limite podem gerar expectativas que você não poderá cumprir.
4. Respeite o tempo e retome o contato: Se a pessoa não quiser conversar, não pressione. Diga que está disponível e procure saber como ela está em outro momento. A Mental Health Foundation recomenda apoiar a busca de atendimento sem assumir o controle das decisões.
Para quem precisa de cuidado, um médico de atenção primária ou um profissional de saúde mental pode orientar os próximos passos. Conversar com um amigo oferece apoio, mas não substitui uma avaliação, quando necessária.
Da próxima vez que responder “estou bem”, escute a própria resposta. Se ela não descreve o que você vive, experimente acrescentar uma frase: “Na verdade, tenho passado por dias difíceis. Podemos conversar?”
Você não precisa explicar a vida inteira. Pode começar pelo que está acontecendo hoje.
Liza Andrews é jornalista e apresentadora de TV em Nova Iorque. Acompanhe e envie perguntas e sugestões para a colunista pelo Instagram @LizaAndrewsOficial





