Qualquer um de nós que sofreu a dor excruciante do perdoar há de concordar comigo que a saga da artista retratada no filme The Painter and the Thief conta uma história difícil de assistir, mas verdadeira e repleta de beleza moral.
O documentário norueguês, dirigido por Benjamin Ree e lançado em 2020, começa com um roubo. Dois quadros da pintora tcheca Barbora Kysilkova desaparecem de uma galeria de Oslo. Os ladrões são presos, mas as telas nunca aparecem. Karl-Bertil Nordland, um dos condenados, de longa história de vício e delinquência, não consegue dizer onde estão: estava drogado demais para lembrar. No julgamento, Barbora faz o que ninguém espera. Aproxima-se dele e pergunta se pode pintar o seu retrato. Nasce dali uma amizade improvável, que o filme acompanha por anos. Quando Karl-Bertil se vê retratado com tamanha atenção, desata a chorar. Ser visto como mais do que o seu crime abre nele uma fresta de dignidade. O filme, porém, não oferece redenção de bandeja. Vêm o vício, um grave acidente de carro e a instabilidade de uma vida sem chão. Também Barbora carrega feridas antigas, e a relação passa a cobrar o seu preço dos dois. Os quadros jamais são recuperados.
Faço parte do grupo de interesse Spirituality and Flourishing, ligado à rede do Programa Flourishing, de Harvard, e esta história dialoga de perto com o que temos discutido em nossas reuniões mensais. Na conversa Embracing Forgiveness in Unforgiving Times, promovida pelo Psychotherapy & Spirituality Institute e pela rede Harvard Flourishing Network, a Dra. Kelly Murphy Mason lembrou que perdoar não é gesto sentimental nem forma de desculpar o erro. É trabalho corajoso e transformador, que se recusa a deixar que as mágoas do passado sequestrem o nosso futuro. Reconheceu também que perdoar vai contra o instinto, pois a nossa inclinação ao negativo nos empurra para o ressentimento, e a vingança pode virar um vício de processo, que nos prende a ciclos de dano. Mason distingue duas formas de perdão. O condicional pertence à justiça restaurativa: quem errou reconhece o impacto do que fez e manifesta arrependimento. O incondicional é um dom puro, bem em si mesmo, oferecido sem esperar processo nem remorso. Em nosso grupo, acrescentamos uma terceira via, o perdão divino: olhar para o perdão que Deus nos concede a fim de nos sentirmos dignos de ser perdoados. Quem se sabe perdoado encontra mais liberdade para perdoar, inclusive a si mesmo, tarefa que Mason considera a mais árdua, por exigir honestidade radical e mudança de coração.
Barbora ilustra o perdão incondicional. O seu gesto vem antes de qualquer pedido de desculpas, e a justiça, entretanto, segue o seu curso no tribunal. Em vez de se entregar à vingança, ela faz do ressentimento matéria-prima: pega a ferida e a transforma em retrato. É nisso que vejo a essência da história, e por isso o título desta coluna. O velho provérbio inglês diz que viver bem é a melhor vingança, mas o filme o completa. A melhor vingança é não precisar dela e fazer do ato de perdoar um ato criativo, em que a dor de perdoar quem nos feriu se converte em afirmação positiva da vida. O filme também nos ensina os limites. O perdão liberta quem perdoa, mas não obriga o outro a mudar. A liberdade de Barbora nunca dependeu da conversão de Karl-Bertil.
Que lição tirar disto para nós, imigrantes? Quando viemos para a América, trouxemos bagagem, nos dois sentidos da palavra. Trouxemos as malas, com os nossos pertences, e trouxemos também a outra bagagem, a das mágoas: com a terra que deixamos, com familiares que não nos entenderam, com patrões que nos exploraram, com patrícios que nos decepcionaram, com um país que nem sempre nos acolheu. Essa bagagem pesa, e cada ressentimento carregado é peso a mais a arrastar pelos aeroportos da vida. Perdoar é descartar o excesso, deixar para trás o que não nos serve mais e seguir de mãos mais livres. Não significa esquecer, nem abrir mão da justiça, nem reatar com quem insiste em nos ferir. Significa recusar que o passado dirija o nosso futuro, e investir a energia que gastaríamos em rancor em construir uma vida boa, bela e generosa. Barbora pintou. A cada um de nós cabe descobrir qual é a sua tela.





