Da redação
A Anistia Internacional defendeu a extinção do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) após documentar um amplo conjunto de violações de direitos humanos durante operações de fiscalização migratória realizadas pelo governo do presidente Donald Trump. As conclusões foram apresentadas em um novo relatório que também examina a atuação da Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) e de outras agências federais.
Intitulado “Nós tínhamos apitos, eles tinham armas”, o documento analisa operações realizadas em Chicago, Minneapolis–Saint Paul, Nova Orleans e Washington, DC. Segundo a organização, as ações fazem parte de uma estratégia de detenções e deportações em massa que tem provocado medo entre imigrantes, solicitantes de asilo, refugiados e comunidades inteiras.
Para a Anistia Internacional, os episódios identificados não representam ocorrências isoladas, mas padrões recorrentes de abuso que se intensificaram desde janeiro de 2025.
A investigação reuniu entrevistas com 154 pessoas nas quatro regiões analisadas. Os pesquisadores identificaram práticas que, segundo a entidade, violam normas internacionais de direitos humanos.
Entre as situações documentadas estão operações migratórias com discriminação racial, detenções arbitrárias, intimidação, tratamento degradante, uso injustificado da força e repressão violenta de manifestações pacíficas.
O relatório também aponta o uso de gás lacrimogêneo e spray de pimenta contra manifestantes, vigilância considerada ilegal, utilização de tecnologias de reconhecimento facial e condições desumanas de detenção.
Algumas mortes provocadas por agentes federais, segundo a organização, devem ser investigadas como possíveis execuções extrajudiciais. Há ainda denúncias de pessoas mantidas incomunicáveis, situações que podem configurar desaparecimento forçado, além de condições de confinamento que devem ser examinadas à luz da proibição internacional da tortura.
A entidade afirma que agentes frequentemente atuaram mascarados e sem identificação visível, enquanto mecanismos destinados a prevenir abusos e responsabilizar os envolvidos foram enfraquecidos.
Deputada relata abordagem violenta contra mulher grávida
Um dos episódios apresentados no relatório envolve o depoimento da deputada estadual de Minnesota Liish Kozlowski, de ascendência indígena Ojibwe e latina.
Segundo ela, uma prima grávida estava dentro de um veículo com o marido, a caminho do trabalho, quando agentes do ICE se aproximaram, quebraram a janela e realizaram uma abordagem armada.
O marido teria informado que a mulher era indígena norte-americana e apresentado sua identificação tribal. De acordo com o relato, um dos agentes respondeu que aquilo não importava e afirmou que aquela terra agora pertencia a eles.
A Anistia Internacional apresenta o episódio como um dos exemplos de abordagens nas quais agentes federais aparentemente utilizaram características raciais para selecionar pessoas durante operações migratórias.
Para Ana Piquer, diretora da Anistia Internacional para as Américas, essas práticas provocam consequências que ultrapassam o momento da detenção, incluindo separação familiar, sofrimento psicológico e impactos duradouros sobre crianças e comunidades.
Religioso relata ter sido atingido durante manifestação em Chicago
O documento também destaca episódios envolvendo pessoas que acompanhavam operações federais, prestavam assistência a imigrantes ou participavam de manifestações.
Em Chicago, uma instalação federal em Broadview tornou-se um dos principais pontos de protesto contra as ações do ICE e da Patrulha de Fronteira.
O reverendo David Black relatou que participava de atividades religiosas no local quando foi atingido por projéteis contendo substância irritante.
Segundo seu depoimento, ele estava identificado como integrante do clero e se dirigia a três agentes posicionados no telhado da instalação quando os disparos atingiram seu rosto, braços e tronco.
A organização considera o episódio parte de um padrão de repressão a manifestações e atividades pacíficas de pessoas que questionavam a atuação das autoridades migratórias.
Comunidades organizaram redes de proteção
Apesar das denúncias, o relatório também destaca a mobilização de moradores e organizações comunitárias para acompanhar as operações e prestar assistência às famílias atingidas.
Entre as iniciativas identificadas estão redes de resposta rápida, grupos de ajuda mútua, treinamentos para observadores de direitos constitucionais e sistemas de acompanhamento de crianças no trajeto escolar.
Essas estruturas, segundo a Anistia Internacional, desempenharam papel importante na documentação de possíveis abusos e no apoio às pessoas diretamente afetadas pelas ações federais.
Organização defende o fim do ICE
Criado em 2003, após os atentados de 11 de setembro de 2001, o ICE já era alvo de denúncias de violações de direitos humanos e falta de mecanismos adequados de fiscalização, segundo a organização.
Entretanto, a entidade afirma que a dimensão das operações desde janeiro de 2025, acompanhada de novos investimentos bilionários e da persistente ausência de responsabilização, representa uma escalada preocupante.
Nadia Daar, diretora executiva da Anistia Internacional nos Estados Unidos, declarou que o relatório demonstra um padrão de violações destinado a espalhar medo entre comunidades de imigrantes, refugiados e solicitantes de asilo.
Para ela, a estrutura atual da agência não pode ser corrigida apenas por reformas internas.
A Anistia Internacional passou, assim, a defender formalmente a extinção imediata do ICE e a construção de um novo sistema de fiscalização migratória baseado no respeito aos direitos humanos e às normas internacionais.
A entidade também cobra investigações e responsabilização dos agentes e autoridades envolvidos nas violações documentadas.
O relatório completo está disponível no site oficial da Anistia Internacional: “We Had Whistles, They Had Guns”





