Numa manhã quente de julho, a preocupação central do casal de angolanos Pedro e sua esposa não era o trabalho na construção civil ou as aulas de verão do filho de 10 anos. Era um pacto silencioso feito meses antes: se a fiscalização de imigração os alcançasse, um dos dois precisava continuar livre para cuidar da criança.
O plano, no entanto, foi posto à prova quando os agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA (ICE) interceptaram a esposa de Pedro logo após ela deixar o menino na escola. Embora o alvo original fosse ele, os agentes a detiveram.
Falando pelo viva-voz do celular enquanto estava em um canteiro de obras, Pedro, um carpinteiro que vive legalmente no país enquanto aguarda o processamento de seu pedido de asilo, ofereceu sua localização exata para que libertassem sua esposa. A resposta dos agentes foi direta: ela só seria solta quando ele estivesse sob custódia.
Foram necessárias horas de negociação intermediadas por uma advogada para firmar o acordo. Por volta das 16h do dia 8 de julho, Pedro entregou-se no escritório do ICE em Scarborough, no estado do Maine, efetuando uma "troca" com a esposa, que já havia sido transferida para Massachusetts.
"Disse palavras de muito carinho sobre minha esposa, que daria minha vida por ela e que estava disposto a me entregar no lugar dela", relatou Pedro, que falou sob a condição de ter apenas o primeiro nome divulgado por razões de segurança jurídica.
O caso de Pedro não é isolado. Enquanto a atuação do ICE intensificou-se em todo o país, advogados de imigração na Nova Inglaterra apontam que o Maine tornou-se um ponto fora da curva. No estado, agentes têm direcionado esforços contra imigrantes sem histórico criminal, que entraram no país legalmente com vistos, deram entrada no pedido de asilo e possuem autorização federal para trabalhar.
Documentos apresentados em tribunais federais no Maine e em Massachusetts identificam cerca de uma dúzia de casos semelhantes ocorridos no último verão americano. Imigrantes cumpridores da lei vêm sendo detidos na porta de suas casas ou em seus locais de trabalho.
"Não creio que em Massachusetts estejam fazendo esse tipo de vigília na porta da casa das pessoas", afirmou Jacob Binnall, advogado que ajudou a apresentar uma petição de habeas corpus para contestar a prisão de Pedro. "No Maine, parece ser exatamente isso o que está acontecendo."
A tática entra em contradição com o discurso oficial do ICE de que o foco das operações são criminosos de alta periculosidade que entraram ilegalmente no país. Em nota oficial, um porta-voz da agência reiterou a linha dura tradicional: "Nossa mensagem é clara: se você entrar em nosso país ilegalmente e quebrar nossas leis, nós o encontraremos, o prenderemos e o deportaremos", afirmou a agência, sem responder a perguntas específicas sobre a estratégia adotada no Maine.
O impacto em um estado com poucos imigrantes
O Maine possui uma das menores populações de imigrantes dos Estados Unidos — cerca de 4% do total de residentes. No entanto, um estudo publicado pelo Migration Policy Institute destacou que a recente onda de recém-chegados, em sua maioria solicitantes de asilo provenientes de países africanos como Angola e Ruanda, tem tido papel relevante na economia local, apresentando taxas de participação no mercado de trabalho superiores às da média estadual.
Dados do Deportation Data Project indicam que a maioria dos detidos pelo ICE no Maine desde o início da nova gestão republicana não possui antecedentes criminais. Análises de dados locais mostram que o Maine registrou o terceiro maior aumento do país em prisões de imigrantes sem condenações prévias, sendo cidadãos angolanos a maioria dos detidos.
Para o advogado Jamie Wagner, que representou mais de uma dúzia de solicitantes de asilo detidos apenas por estouro do prazo do visto (visa overstay), a tática gera questionamentos não apenas humanos, mas orçamentários.
"Gasta-se dezenas de milhares de dólares em bônus para contratar agentes que prendem pessoas cientes de que elas serão libertadas pelo juiz de imigração em poucas semanas?", questiona Wagner. "Do ponto de vista do contribuinte, isso parece irracional, deixando de lado toda a desumanidade da situação."
A controvérsia afeta até mesmo a política local. Até figuras da ala conservadora, como o ex-governador e candidato ao Congresso Paul LePage, expuseram as ambiguidades do debate ao revelar publicamente que o sogro de seu filho havia sido deportado, apesar de possuir permissão de trabalho.
Medo constante e incerteza
Pedro chegou aos Estados Unidos com a família no final de 2021, desembarcando no Aeroporto Internacional JFK, em Nova York, com vistos de turista. Após solicitar asilo com base em perseguição política e religiosa em Angola, mudou-se para o Maine, aprendeu inglês, filiou-se ao sindicato dos carpinteiros e matriculou o filho na escola pública.
Embora o sistema de asilo acumule atrasos que podem levar anos para uma decisão final, a legislação americana garante ao requerente o direito de trabalhar e viver no país enquanto o processo tramita.
Após se entregar no escritório de Scarborough e reencontrar brevemente a esposa — em um momento de emoção presenciado pelos próprios agentes —, Pedro passou nove dias detido até ser levado a um juiz de imigração, que ordenou sua libertação imediata para aguardar o julgamento em liberdade.
Apesar de estar novamente em casa com a família, o sentimento de segurança desapareceu. "Ainda vivo em constante estado de preocupação", desabafa.
Ex-contratado acusa gestão Trump de buscar condições cruéis em galpões de detenção para imigrantes
Revelações obtidas pela NPR indicam que plano de converter armazéns em centros de custódia custou R$ 5 bilhões, enfrentou resistência interna no DHS e teve oposição judicial.
Um plano milionário do governo dos Estados Unidos para converter armazéns em centros de detenção de imigrantes gerou intensos debates internos e denúncias de busca intencional por condições desumanas. Segundo revelou um empreiteiro governamental em entrevista investigativa à rádio pública americana NPR, o assessor da Casa Branca, Stephen Miller, teria insistido pessoalmente em criar instalações sem conforto para os detidos, rejeitando propostas mais humanitárias.
A reportagem revela que o Departamento de Segurança Interna (DHS) adquiriu 11 galpões no início do ano, investindo cerca de US$ 1 bilhão (aproximadamente R$ 5 bilhões) como parte das políticas de deportação em massa da gestão Donald Trump. No entanto, a ideia de abrigar pessoas nesses locais enfrentou forte rejeição até mesmo dentro do próprio governo.
"Ninguém com quem conversamos no DHS era a favor dessa ideia. O vice-diretor nos disse categoricamente que havia pressionado muito contra isso. Todos sabiam que armazéns são lugares horríveis para colocar pessoas", afirmou o contratado, sob condição de anonimato por medo de retaliações.
Durante reuniões com a cúpula do DHS, a empresa do contratado sugeriu a criação de acampamentos semelhantes aos utilizados pela Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) no Texas, que ofereceriam condições mais adequadas. A proposta foi prontamente descartada. Embora Stephen Miller não estivesse presente na reunião, os representantes do DHS teriam deixado claro qual era a orientação superior.
"Disseram-nos abertamente que não era isso que a administração queria. Miller não queria instalações confortáveis ou humanas", declarou a fonte, acrescentando que, em 25 anos de prestação de serviços ao governo norte-americano, nunca havia testemunhado tamanha irredutibilidade: "Steve Miller fez questão de deixar claro a todos que queria que fosse cruel".
A percepção é corroborada por outros observadores e ex-integrantes da administração. Michael Wriston, cofundador do Project Salt Box — grupo que monitora a expansão das instalações do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) —, destacou que a prioridade parecia ser o apelo visual das restrições: "Tratava-se realmente da ótica de ver pessoas mantidas nessas gaiolas e nesses grandes armazéns".
Nas redes sociais, Aaron Reichlin-Melnick, especialista em políticas de imigração do American Immigration Council, resumiu a situação afirmando que "todos sabiam que o plano dos armazéns era insensato, mas Miller exigia desumanidade".
Resposta da Casa Branca
A Casa Branca negou veementemente as acusações. Em nota oficial enviada à NPR, a porta-voz Lauren Bis classificou as declarações como "boato falso" e "difamatório", vindo de alguém que "nunca se reuniu ou conversou com Stephen Miller".
Bis acrescentou que o assessor "nunca fez observações a ninguém sobre querer que imigrantes ilegais tivessem condições piores em instalações de detenção". Pedidos repetidos da reportagem para entrevistar Miller diretamente não foram atendidos pela Casa Branca.
Travamento na Justiça e prejuízo milionário
O projeto acabou paralisado após procuradores-gerais de diversos estados moverem ações judiciais alegando impactos ambientais. Em estados como Maryland, Arizona e New Jersey, acordos judiciais e decisões magistradas ordenaram a suspensão das obras até a conclusão das avaliações ambientais exigidas por lei.
Sem poder utilizar a maioria dos imóveis, o governo amarga perdas financeiras:
Venda com prejuízo: Sete dos 11 galpões adquiridos já foram colocados à venda por valores inferiores aos pagos pelo ICE, segundo levantamento do Project Salt Box.
Uso irregular sob suspeita: Apesar das proibições judiciais, a NPR identificou indícios de que o ICE continua utilizando ao menos um galpão localizado em Roxbury, New Jersey, para manter detidos.
A situação gerou indignação entre lideranças locais. Sandra Wittner, vereadora democrata da cidade vizinha de Dover, defendeu fiscalização imediata no local: "Precisamos que nossos congressistas realizem uma visita de fiscalização urgentemente. Precisamos que nosso estado investigue isso agressivamente e exija acesso ao interior das instalações".





