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Imigrantes evitam escolas e atendimento médico por receio de fiscalização nos EUA

O atual cenário migratório dos Estados Unidos começa a provocar uma consequência que nem sempre aparece nas estatísticas de detenções: imigrantes estão mudando hábitos cotidianos por receio de ter contato com…

Publicado em 09/02/26
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Imigrantes evitam escolas e atendimento médico por receio de fiscalização nos EUA

O atual cenário migratório dos Estados Unidos começa a provocar uma consequência que nem sempre aparece nas estatísticas de detenções: imigrantes estão mudando hábitos cotidianos por receio de ter contato com autoridades federais.

Ir ao hospital, levar os filhos para a escola ou procurar determinados serviços passou a ser motivo de preocupação para algumas famílias. Relatos vindos de diferentes estados indicam que o medo de uma possível abordagem está fazendo pessoas adiarem compromissos ou simplesmente deixarem de frequentar locais considerados essenciais.

Na área da educação, Massachusetts já registra números que ajudam a dimensionar essa mudança.

Dados analisados pelo Instituto Annenberg, da Brown University, mostram redução no número de estudantes imigrantes recém-chegados às escolas públicas do estado. Entre 2023-2024 e o final do ano letivo seguinte, a quantidade de novos alunos com inglês limitado caiu de mais de 6.400 para aproximadamente 5.300.

A mudança foi percebida especialmente em comunidades com forte presença de imigrantes, como Chelsea, Boston, Framingham, Lynn e Everett.

Em alguns casos, a diferença foi expressiva. Gestores de Chelsea relataram que uma turma destinada a recém-chegados, que anteriormente reunia mais de 30 estudantes, chegou a ter apenas dois. Boston também registrou uma redução superior a 1.600 alunos em um ano.

As razões podem variar, incluindo mudanças de endereço ou retorno de famílias aos países de origem. Entretanto, educadores também apontam o receio relacionado à fiscalização migratória como um dos fatores presentes nesse novo cenário.

A ausência dos estudantes produz ainda outra consequência. Como o número de matrículas influencia o financiamento das redes de ensino, a redução pode afetar o planejamento e os recursos disponíveis para os distritos escolares.

Caso na Flórida amplia discussão sobre hospitais

Na área da saúde, um episódio registrado em Kissimmee, na Flórida, colocou novamente o assunto em evidência.

Grace Calero, de 39 anos, e sua filha Giulianna Carriel, de 19, receberam atendimento hospitalar depois de um acidente de trânsito em 20 de agosto. As duas acabaram posteriormente sob custódia das autoridades de imigração.

A forma como a abordagem aconteceu é contestada.

Familiares afirmam que Grace ainda estava recebendo atendimento quando agentes chegaram ao local. Autoridades do Condado de Polk, por outro lado, disseram que a ação migratória aconteceu depois que o atendimento médico havia sido concluído.

Também existem versões diferentes sobre a situação migratória das duas.

Segundo familiares, mãe e filha haviam deixado o Equador após ameaças e buscaram proteção nos Estados Unidos. Grace também teria autorização para trabalhar.

O ICE informou à BBC que ambas haviam entrado legalmente no país, porém permaneceram nos Estados Unidos além do período permitido pelos respectivos vistos.

Depois de ficarem sob custódia, elas solicitaram retorno voluntário ao Equador e deixaram os Estados Unidos em 25 de agosto.

Receio preocupa profissionais da saúde

Para médicos e outras organizações da área, episódios envolvendo fiscalização migratória dentro ou nas proximidades de hospitais podem produzir um efeito que vai muito além das pessoas diretamente envolvidas.

A preocupação é que outros imigrantes passem a evitar atendimento por medo de encontrar autoridades.

Isso pode fazer com que uma pessoa deixe de procurar ajuda nos primeiros sinais de um problema e chegue ao hospital somente quando a situação estiver mais séria.

Hospitais americanos continuam sujeitos às regras federais de atendimento emergencial. Pessoas que chegam com uma possível emergência médica devem receber avaliação e, quando necessário, estabilização, independentemente de sua condição migratória.

O HCA Florida Poinciana, onde mãe e filha foram atendidas, declarou que presta assistência de emergência sem considerar o status migratório do paciente e afirmou também que precisa seguir as exigências legais aplicáveis quando autoridades atuam na unidade.

Mudança nas regras aumentou preocupação

O debate ganhou força depois que o governo federal modificou orientações relacionadas aos chamados “locais sensíveis”.

Durante anos, escolas, hospitais e igrejas receberam tratamento diferenciado nas diretrizes de fiscalização migratória. Com a mudança dessa política, aumentou a preocupação sobre a possibilidade de operações nesses ambientes.

Ao mesmo tempo, estados como Flórida e Texas intensificaram a colaboração entre autoridades locais e federais por meio do programa 287(g), que permite que determinados agentes locais recebam treinamento para exercer funções relacionadas à imigração.

O crescimento da fiscalização também aparece nos números nacionais. Dados divulgados por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley apontaram aproximadamente 50 mil pessoas sob custódia do ICE em julho.

Massachusetts cria regras para instituições

Em Massachusetts, o governo estadual adotou medidas para tentar preservar o acesso da população a determinados serviços.

O PROTECT Act, sancionado pela governadora Maura Healey, estabelece limitações para certas detenções civis relacionadas à imigração em locais como escolas, creches, tribunais e espaços não públicos de unidades de saúde.

As redes de ensino também receberam orientações sobre como proceder diante da presença de autoridades migratórias. Entre as medidas estão verificar a documentação apresentada, consultar responsáveis jurídicos antes de permitir acesso a áreas restritas e preservar informações pessoais dos estudantes.

Com o início do ano letivo 2026-2027, essas regras passaram a fazer parte da preparação de escolas e creches do estado.

Um impacto que aparece no cotidiano

A discussão sobre imigração normalmente é apresentada por meio de números de detenções, processos e deportações. Mas educadores e profissionais de saúde chamam atenção para outro efeito: as pessoas que deixam de aparecer.

São estudantes que faltam às aulas, famílias que mudam repentinamente de rotina e pacientes que podem pensar duas vezes antes de procurar atendimento.

Por isso, o debate atual não envolve apenas como as leis migratórias são aplicadas. Também envolve o impacto que o receio da fiscalização pode provocar no acesso à educação e à saúde.

Quando uma família passa a enxergar uma escola ou um hospital como um possível ponto de contato com autoridades migratórias, uma decisão que antes era simples pode se transformar em dúvida: procurar o serviço necessário ou permanecer longe dele.

Fonte: Da redação

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