Da redação
As operações de imigração realizadas nos Estados Unidos estão provocando consequências que vão muito além das prisões e deportações. Em Connecticut, crianças e adolescentes enfrentam a separação dos pais, dificuldades emocionais e mudanças profundas em suas rotinas familiares após ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE).
Uma reportagem da Connecticut Public apresenta histórias de famílias atingidas pela intensificação da fiscalização migratória e revela os impactos psicológicos que essas operações podem provocar, especialmente entre menores de idade.
Em New Haven, Monse, de 13 anos, e seu irmão, de apenas 8, presenciaram a detenção da própria mãe por agentes federais de imigração antes de serem levados à escola. A mulher acabou deportada para o México, deixando os dois filhos nos Estados Unidos.
Desde então, Monse convive com a ausência materna e com lembranças que surgem inesperadamente durante suas atividades cotidianas.
"É um sentimento que nunca desaparece. Posso estar fazendo qualquer coisa e, de repente, isso volta à minha cabeça. É claro que eu choro", contou a adolescente à Connecticut Public.
A jovem afirmou que sua vida mudou completamente depois da deportação e defendeu que nenhuma criança deveria passar pela experiência de ser separada dos pais.
Outro caso ocorreu em Meriden, onde Kevin, de 16 anos, foi detido juntamente com o pai durante um comparecimento de rotina às autoridades de imigração, poucos dias antes de uma importante etapa de sua vida escolar. Posteriormente, o pai foi deportado, provocando uma ruptura na estrutura familiar.
Mais de 200 mil crianças afetadas nos Estados Unidos
A dimensão nacional do problema aparece em um levantamento da Brookings Institution. Segundo o estudo, aproximadamente 205 mil crianças foram afetadas pela detenção de seus pais por autoridades migratórias durante os primeiros 15 meses do governo Donald Trump.
Desse total, cerca de 145 mil são cidadãs norte-americanas, demonstrando que as consequências das políticas de imigração também atingem diretamente crianças nascidas nos Estados Unidos.
Em Connecticut, a intensificação das operações também aparece nas estatísticas.
Uma análise da CTData Collaborative, baseada em informações obtidas pelo Deportation Data Project, identificou crescimento nas detenções migratórias entre 2024 e 2025.
O estado registrou uma média de 165 detenções por mês e um aumento de 600% nas apreensões de pessoas sem condenações criminais, mas com acusações ainda pendentes.
Connecticut apresentou o segundo maior crescimento nas detenções entre os estados da região da Nova Inglaterra, ficando atrás apenas de Massachusetts.
No final de agosto, uma operação federal realizada em diferentes cidades de Connecticut resultou em mais de 100 prisões. Organizações de defesa dos imigrantes mobilizaram equipes para auxiliar familiares na localização dos detidos e alertar comunidades sobre a presença dos agentes.
Especialistas alertam para consequências psicológicas
De acordo com a Associação Americana de Psicologia (APA), crianças que enfrentam a separação familiar em decorrência de medidas migratórias podem desenvolver ansiedade, depressão e preocupação constante com a segurança dos pais.
Os efeitos também podem atingir o desempenho escolar, a estabilidade financeira e o desenvolvimento emocional.
Para Kica Matos, presidente do National Immigration Law Center, as consequências ultrapassam os limites das famílias diretamente envolvidas.
"Isso não é saudável para nenhuma comunidade, nenhum indivíduo, nenhuma família, nenhuma cidade, nenhum estado ou para esta nação", declarou.
Procurado pela Connecticut Public para comentar os impactos das operações, o ICE não respondeu à solicitação.
Infância marcada pela ausência dos pais
Enquanto as autoridades federais mantêm suas ações de fiscalização migratória, crianças como Monse e Kevin tentam reconstruir suas rotinas em meio à ausência de familiares.
Para Monse, a experiência deixou marcas profundas.
"Isso mudou minha vida. Acho que nenhuma família deveria ser separada de seus filhos, especialmente quando eles são tão jovens. Espero que isso seja resolvido", afirmou.
Os relatos apresentados pela Connecticut Public evidenciam uma dimensão frequentemente menos visível das operações migratórias: o sofrimento de crianças que permanecem nos Estados Unidos enquanto seus pais são enviados para outros países.
Fontes: Connecticut Public, Brookings Institution, CTData Collaborative e American Psychological Association.





