Por volta de 1790, desembarcava no Rio de Janeiro uma jovem portuguesa de apenas 20 anos, de nome Bárbara Vicente de Urpia. Ela vinha acompanhada do marido, o fidalgo Antonio de Urpia. As razões da mudança para a América ainda hoje geram debate. Há quem diga que Bárbara fugia de uma acusação grave: o envenenamento da própria irmã em Portugal. Outros afirmam que a viagem teria sido arranjada para encobrir um romance extraconjugal da moça, aceito pelo marido e envolvendo um homem influente da alta nobreza.
De qualquer forma, o casal rapidamente se enturmou na elite carioca, favorecido pela beleza marcante de Bárbara e pelos contatos próximos com o Vice-Rei, o Conde de Resende. A jovem era admirada e desejada pelos homens mais poderosos da cidade. Porém, contrariando expectativas, ela acabou se apaixonando por um homem simples, negro e livre, que teria conhecido em uma serenata. Dominada pelo sentimento e pela vontade de viver esse amor, Bárbara assassinou o marido com uma punhalada enquanto ele dormia.
Mesmo sem ser incriminada oficialmente, a morte do fidalgo gerou suspeitas. A imagem de Bárbara diante da Corte desmoronou, e outro homem — pobre e vulnerável — foi acusado e executado em seu lugar. Assim, desacreditada e malvista, Bárbara deixou o convívio nobre e foi viver com o novo amante na região da Cidade Nova, área marginalizada e perigosa. Porém, a tragédia se repetiu: por causa de ciúmes e discussões envolvendo dinheiro, ela teria tirado também a vida desse companheiro. Mais uma vez, outro inocente pagou pelo crime.
Sem prestígio, Bárbara passou a se sustentar pela prostituição. Tornou-se amante de ricos comerciantes, funcionários importantes e até membros da Igreja. Com a chegada da Corte portuguesa em 1808, chegou a receber nobres recém-chegados da Europa, sempre em encontros discretos na Rua do Lavradio.

Mas o tempo foi implacável. Bárbara teria contraído doenças como sífilis, lepra e varíola. Perdeu a beleza que tanto encantava e foi sendo abandonada por todos. Já sem dinheiro e em condições físicas deploráveis, acabou exercendo a prostituição no Arco do Teles, então um local degradado, cheio de ruínas e miséria. Lá, ficou conhecida como “Bárbara dos Prazeres”, nome que fazia referência à imagem de Nossa Senhora dos Prazeres instalada no beco — e à própria atividade que ela exercia.
Com a saúde arruinada, buscou auxílio em feiticeiros e curandeiros, que lhe receitavam banhos com sangue de animais para recuperar a juventude. Nada funcionou. Foi então aconselhada a substituir os animais por crianças. No final da década de 1820, começou-se a registrar o desaparecimento de menores na cidade, aumentando o pânico nas famílias. Diz-se que Bárbara roubava bebês deixados na roda dos enjeitados da Santa Casa, e que seu nome passou a ser sussurrado em reuniões de desespero e medo.
Em 1830, um corpo feminino foi encontrado boiando próximo ao Mercado do Peixe. O rosto era irreconhecível, mas a cidade inteira acreditou ser Bárbara. Coincidentemente — ou não — os desaparecimentos cessaram. Não houve confirmação oficial, apenas o silêncio posterior.
O que é fato e o que é invenção dessa história? Impossível saber completamente. Mulheres que fugiam das normas e desafiavam os papéis sociais frequentemente eram transformadas em monstros e acusadas de crimes alheios. Talvez parte da história seja exagero, talvez não.
O que permanece é a lenda. Ainda há quem diga que, em noites escuras, quando o Arco do Teles está deserto, é possível ouvir risadas estranhas ecoando pelo lugar onde um dia viveu a mulher que o povo jurou chamar de bruxa.





