Um programa financiado pelo governo federal dos Estados Unidos está sendo questionado após uma investigação revelar que policiais locais de Nova York ajudaram a Patrulha da Fronteira a deter imigrantes durante abordagens de trânsito. Entre as pessoas presas está um trabalhador brasileiro que vivia no país havia quase cinco anos.
O caso aconteceu em dezembro de 2025, em Watertown, aproximadamente 48 quilômetros ao sul da fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá. Um policial do Condado de Jefferson abordou uma van Chevrolet sob a alegação de três infrações: faróis apagados, uso incorreto da seta e para-brisa trincado.
O motorista, um brasileiro de 52 anos identificado apenas pelo sobrenome Martins, apresentou uma carteira de habilitação da Pensilvânia. O passageiro, seu cunhado, portava um passaporte brasileiro. Apesar de a abordagem estar relacionada ao trânsito, o policial acionou a Patrulha da Fronteira. Os dois homens foram detidos e levados a uma unidade federal.
A ação fazia parte da Operação Stonegarden, programa que repassa recursos federais às forças de segurança locais para patrulhar regiões próximas às fronteiras internacionais. Naquele dia, o governo federal pagou pouco mais de US$ 800 ao Condado de Jefferson pela jornada especial de dez horas realizada pelo policial.
Segundo Martins, ele e o cunhado haviam saído de uma obra para almoçar quando foram parados. O brasileiro reconheceu que o para-brisa estava trincado, mas contestou as demais supostas irregularidades. Ele afirmou ainda que não recebeu qualquer multa de trânsito. “Ele simplesmente se aproximou de mim para poder chamar a Patrulha da Fronteira”, declarou Martins à publicação New York Focus.
Os agentes federais teriam chegado aproximadamente dez minutos depois. Martins, que recorria de uma ordem de deportação, permaneceu durante dois meses sob custódia do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) na cadeia do Condado de Broome.
O brasileiro somente foi libertado depois que um juiz federal determinou a realização de uma audiência de fiança. A Justiça estabeleceu o valor em US$ 50 mil, obrigando a família a pedir dinheiro emprestado. Atualmente, Martins trabalha em jornadas que chegam a mais de 12 horas por dia em uma obra em Maryland para ajudar a pagar a dívida.
“Naquele momento, senti que meus direitos constitucionais estavam sendo violados. Senti que aquilo era quase ilegal”, afirmou.
Pelo menos 24 imigrantes entregues à Patrulha da Fronteira
A investigação do New York Focus identificou que policiais de cinco condados participantes da Stonegarden entregaram pelo menos 24 imigrantes à Patrulha da Fronteira desde 2023, principalmente depois de abordagens de trânsito.
O número pode ser maior, pois 13 condados participam do programa em Nova York. Os documentos também registram outras 21 pessoas entregues aos agentes federais sem que os relatórios explicassem os motivos.
Criada inicialmente na fronteira entre os Estados Unidos e o México, a Operação Stonegarden chegou a Nova York em 2009. Desde então, aproximadamente US$ 30 milhões foram distribuídos aos condados localizados perto da fronteira com o Canadá. Os recursos financiam horas extras, patrulhamento de estradas, marinas e trilhas, além da compra de equipamentos de vigilância, como leitores automáticos de placas.
Todos os condados fronteiriços de Nova York recebem verbas do programa. Em 2026, os repasses variaram entre US$ 100 mil e US$ 325 mil, além de US$ 90 mil destinados à comunidade indígena St. Regis Mohawk. A governadora Kathy Hochul também anunciou US$ 2,7 milhões para a iniciativa como parte dos investimentos em combate ao terrorismo e preparação para emergências.
Autoridades estaduais e departamentos policiais sustentam que o objetivo da Stonegarden é combater crimes transnacionais, tráfico de drogas e de pessoas, além de apoiar operações de busca e salvamento. Algumas delegacias afirmam que não utilizam os recursos para fiscalizar a situação migratória da população.
Entretanto, documentos e imagens de câmeras corporais analisados pela investigação mostram policiais locais mantendo contato direto com agentes federais e, em determinadas abordagens, aguardando a chegada da Patrulha da Fronteira.
A revelação ocorre depois de Nova York proibir acordos do tipo 287(g), que permitem a participação formal de policiais locais em determinadas funções migratórias. A nova legislação, porém, não impediu outras formas de cooperação com autoridades federais, incluindo a Stonegarden.
Parlamentares estaduais defendem agora regras mais rígidas e maior transparência. Para eles, o programa pode estar sendo utilizado como uma maneira de contornar as restrições impostas à colaboração entre forças policiais locais e agências federais de imigração.





