Há um otimismo inebriante pairando sobre as diretorias globais. Uma pesquisa recente da IBM revela que oito em cada dez executivos apostam que a inteligência artificial (IA) será o grande motor de receita até 2030. Hoje, apenas 40% têm essa mesma convicção. O mercado está, de forma palpável, recalibrando a IA: de uma simples ferramenta de corte de custos para um vetor estratégico de inovação.
Mas, sob a superfície desse entusiasmo corporativo, esconde-se uma armadilha sutil. Se todos estão utilizando a IA para fazer mais, mais rápido e com menos recursos, a eficiência pura e simples deixa de ser um diferencial competitivo. Ela se torna o piso — o requisito mínimo para entrar no jogo.
Como bem pontua Tiago Prado, conselheiro estratégico de empresários brasileiros no exterior: “Na era da IA, a produtividade virou commodity”.

A lógica é matemática e implacável. A IA barateia a execução técnica. Quando a execução se torna abundante e acessível a todos, a concorrência se acirra. O resultado inevitável? Uma pressão deflacionária sobre o preço final dos produtos e serviços. Se o preço cai porque ficou fácil fazer, a sua margem de lucro diminui — a menos que você detenha ativos que o algoritmo não consegue replicar. É a dinâmica da Economia em K, onde a IA amplifica ativos e comoditiza o trabalho.
A grande transição que observaremos nesta década não é tecnológica, mas estratégica. Os investimentos em IA, hoje focados em eficiência, migrarão maciçamente para a inovação. As empresas não buscarão apenas fazer o mesmo de forma melhor; buscarão criar novas capacidades e modelos de atuação.
Nesse cenário, o valor econômico migra do simples “fazer” para o “direcionar”. A capacidade de orquestração supera a execução operacional. Para sobreviver e prosperar, o foco deve estar nos pilares de valor intangível e controle:
- Marca e Reputação: A confiança que a máquina não sintetiza.
- Canais de Distribuição: O domínio sobre como e onde o valor chega ao cliente.
- Propriedade de Dados: Informações organizadas e proprietárias que alimentam a verdadeira inteligência de negócios.
- Relacionamento com o Cliente: A gestão direta da lealdade e da experiência humana.
O desafio para os próximos anos, especialmente em um mercado de trabalho americano mais frágil do que parece, é responder a uma pergunta incômoda: O que continua sendo essencial e raro quando todo o resto se torna comum?
O vencedor na economia da IA não será necessariamente a empresa mais tecnológica, mas aquela que conseguir traduzir a tecnologia em vantagem operacional e posicionamento de mercado inatacável.
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