Da Redação
Um homem que durante anos forneceu informações às autoridades americanas sobre integrantes de organizações terroristas agora está sob custódia do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) e enfrenta uma nova batalha para não ser deportado.
Blerim Skoro, de 55 anos, natural do Kosovo, foi preso por agentes do ICE no dia 3 de agosto, quando compareceu a um escritório de imigração em Elizabeth, Nova Jersey, para renovar sua documentação. Ele vive em Staten Island, Nova York, trabalha como motorista de táxi, é casado com uma cidadã americana e tem três filhos. Atualmente, está detido no Elizabeth Detention Center.
O caso ganhou repercussão depois que uma investigação da CBS News revelou documentos e relatos sobre a colaboração de Skoro com autoridades americanas na chamada “guerra ao terror”.
Segundo documentos do FBI obtidos pela emissora, Skoro atuou como informante confidencial e, em 2004, forneceu informações classificadas como confiáveis e capazes de gerar ações investigativas em um caso relacionado a Osama bin Laden.
De condenado por drogas a informante
A relação de Skoro com as autoridades americanas começou em circunstâncias controversas. Em 2000, ele foi preso por tráfico de drogas após transportar heroína para uma organização criminosa albanesa. Durante o período em que cumpria pena em uma prisão federal, teria se aproximado de extremistas islâmicos e posteriormente começado a fornecer informações ao FBI.
Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, Skoro afirma que sua colaboração ganhou outra dimensão.
Entre 2002 e 2006, enquanto estava preso na penitenciária federal de Allenwood, na Pensilvânia, ele diz ter coletado informações sobre indivíduos posteriormente envolvidos em casos de terrorismo. Documentos do FBI confirmam que Skoro foi registrado como informante confidencial, embora nem todas as alegações feitas por ele sobre seu trabalho para as agências americanas tenham sido confirmadas publicamente.
Skoro foi deportado para Kosovo em 2007. Segundo seu relato, depois disso passou a trabalhar secretamente para a CIA, infiltrando-se em redes extremistas nos Bálcãs e viajando para países do Oriente Médio e outras regiões.
Ele afirma ter atuado infiltrado entre 2007 e 2009 e ter fornecido informações sobre integrantes da Al-Qaeda e outros grupos extremistas. Fotografias e vídeos apresentados por Skoro mostram encontros com pessoas posteriormente relacionadas a investigações de terrorismo. A CIA, entretanto, não confirmou publicamente todos os detalhes de sua alegada atuação como agente.
Informações teriam ajudado na prisão de terrorista
Um dos episódios mais importantes envolve Betim Kaziu, posteriormente condenado nos Estados Unidos a 27 anos de prisão por crimes relacionados ao terrorismo.
Skoro afirma que hospedou Kaziu em seu apartamento no Kosovo e comunicou secretamente sua localização a um contato da inteligência americana. Kaziu acabou preso em julho de 2009. A CBS News teve acesso a e-mails posteriores que fazem referência ao retorno de Kaziu aos Estados Unidos.
Skoro também afirma ter colaborado em investigações envolvendo integrantes ou simpatizantes da Al-Qaeda, Al-Shabaab e Hezbollah, além de ter fornecido informações ao FBI e ao Departamento de Polícia de Nova York após retornar aos Estados Unidos.
Retorno aos Estados Unidos
Segundo a investigação, Skoro retornou aos Estados Unidos em 2014, entrando pelo Canadá sem autorização migratória. Ele afirmou que sua identidade como informante havia sido descoberta e que chegou a ser baleado na perna durante uma tentativa de assassinato no Kosovo.
Em 2016, voltou a entrar no radar das autoridades migratórias após ser preso pela polícia de Nova York por utilizar o cartão de transporte estudantil de sua filha.
A partir daí, começou uma longa disputa na Justiça de imigração.
Proteção contra deportação para Kosovo
Em novembro de 2022, Skoro conseguiu uma importante proteção: uma decisão impediu sua remoção para Kosovo com base na Convenção das Nações Unidas contra a Tortura, diante do risco de que fosse torturado ou morto caso retornasse ao país.
Essa decisão, porém, não concedeu residência permanente nem um green card a Skoro. Ela ofereceu proteção contra sua remoção para Kosovo devido aos riscos identificados.
Agora, seus advogados argumentam que o ICE não pode simplesmente removê-lo sem respeitar as proteções e procedimentos judiciais aplicáveis.
Prisão pelo ICE provoca nova batalha judicial
No dia seguinte à prisão, em 4 de agosto, os advogados de Skoro apresentaram uma petição de habeas corpus na Justiça Federal de Nova Jersey. O processo, Skoro v. Wilson, permanece ativo.
Ainda naquele dia, a Justiça determinou que Skoro não fosse transferido para fora de Nova Jersey enquanto o tribunal analisava o caso. Posteriormente, uma petição modificada foi apresentada pelos advogados, que questionam a legalidade da prisão e de uma eventual remoção sem o devido processo.
A defesa sustenta que Skoro colocou a própria vida em risco durante anos em benefício dos Estados Unidos e que enviá-lo para um local onde possa ser identificado por organizações extremistas poderia representar uma ameaça à sua vida.
Em entrevista à CBS News diretamente do centro de detenção, Skoro demonstrou sentimento de abandono pelo país para o qual afirma ter trabalhado durante anos.
O ICE reconheceu à CBS News ter recebido um pedido de posicionamento sobre o caso, mas não havia fornecido uma resposta para a reportagem. CIA e FBI também não responderam às solicitações da emissora.
O episódio coloca no centro do debate uma situação incomum: um imigrante que possui condenação criminal e problemas migratórios, mas que também possui documentação que confirma sua atuação como informante do governo americano em investigações de terrorismo.
Agora, enquanto permanece sob custódia do ICE em Nova Jersey, Skoro aguarda uma decisão judicial que poderá definir se continuará nos Estados Unidos ou se enfrentará novamente a possibilidade de remoção do país que, segundo ele, ajudou durante anos no combate ao terrorismo.





