As mudanças nas regras de imigração dos Estados Unidos estão provocando novos debates sobre emprego, salários e inflação. Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics, avalia que a redução da disponibilidade de trabalhadores estrangeiros pode estar produzindo efeitos inesperados, inclusive para profissionais nascidos no país.
A análise ocorre em meio a uma transformação na composição do mercado de trabalho. Dados observados desde o ano passado mostram que, em determinado período, o desemprego entre imigrantes ficou abaixo do índice registrado entre trabalhadores americanos, invertendo um padrão normalmente observado no país.
Para Zandi, limitar a oferta de mão de obra não significa necessariamente que as vagas anteriormente ocupadas por estrangeiros serão automaticamente preenchidas por americanos. Empresas que dependem fortemente desses profissionais podem enfrentar dificuldades para manter suas operações e, diante disso, reduzir produção, adiar investimentos ou elevar custos.
Esse cenário, segundo o economista, pode contribuir para uma situação em que a atividade econômica perde força enquanto os preços continuam pressionados. Ele também considera que as tarifas comerciais e as tensões internacionais ampliam esse desafio.
A inteligência artificial aparece como um dos fatores que ainda sustentam parte da atividade econômica. Os investimentos bilionários em tecnologia, infraestrutura digital e centros de dados têm movimentado diferentes segmentos e ajudado a compensar dificuldades observadas em outras áreas.
Agricultura está entre os setores mais expostos
O impacto da redução da mão de obra estrangeira preocupa especialmente o setor agrícola. Aproximadamente 38% dos trabalhadores das áreas de agricultura, pesca e silvicultura são estrangeiros, de acordo com os dados citados na análise.
Estimativas apontam ainda que uma parcela expressiva dos profissionais que trabalham diretamente nas lavouras poderia deixar de estar disponível diante de regras migratórias mais rígidas.
A preocupação dos produtores não envolve apenas encontrar substitutos. Muitas dessas atividades são fisicamente exigentes, realizadas em condições difíceis e dependem de trabalhadores com experiência. A contratação de americanos para essas funções, portanto, pode exigir salários maiores e mudanças nas condições oferecidas.
Uma eventual falta de funcionários no campo também poderia atingir outras etapas da cadeia produtiva. Menor capacidade de produção e colheita pode significar custos maiores para empresas e, posteriormente, reflexos nos preços pagos pelos consumidores.
Números do emprego exigem atenção
Os indicadores nacionais também apresentam sinais contraditórios. Em julho, o desemprego ficou em 4,1%, apesar da redução de 23 mil postos de trabalho.
Ao mesmo tempo, a participação na força de trabalho caiu para 61,4%, menor patamar desde fevereiro de 2021. O indicador considera pessoas que estão trabalhando ou procurando emprego.
Isso significa que uma taxa de desemprego mais baixa nem sempre representa aumento das oportunidades. Quando pessoas deixam de procurar uma colocação, elas deixam de fazer parte do cálculo da população economicamente ativa, o que também pode reduzir o índice.
Casa Branca defende benefícios para trabalhadores americanos
O governo Trump apresenta uma avaliação diferente dos efeitos das medidas migratórias. A Casa Branca sustenta que uma menor oferta de trabalhadores estrangeiros pode fortalecer a posição dos americanos nas negociações salariais.
Construção, manufatura e transporte estão entre os setores apontados pelo governo como exemplos desse movimento. Informações do Federal Reserve de Nova York também indicaram avanço salarial em áreas como construção e mineração.
Entretanto, outros fatores ajudam a explicar esse desempenho. A expansão dos centros de dados destinados à inteligência artificial, por exemplo, aumentou a procura por trabalhadores e serviços ligados à construção e à infraestrutura.
O comportamento dos salários também permanece no centro da discussão sobre o custo de vida. Entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, os ganhos reais por hora avançaram 1,4%. Para alguns economistas, porém, a evolução ainda é pequena quando comparada ao crescimento acumulado da economia e dos resultados das empresas nas últimas décadas.
O efeito completo das mudanças migratórias deverá depender da capacidade das empresas de encontrar novos trabalhadores, reajustar salários e aumentar a produtividade. Enquanto isso, emprego, inflação e disponibilidade de mão de obra permanecem entre os principais indicadores para medir as consequências das atuais políticas econômicas dos Estados Unidos.





